Tabu pessoal desde sempre: ovos moles somente com arroz, nunca com feijão. Com feijão as gemas devem estar firmes e amarelo pálido. E isso já é outra memória, que não essa:Arroz com ovos! (que falávamos ôvos).
Três meninas com seus pratinhos forrados de perolazinhas de arroz , aguardando ovo quentinho. _Mãe, quero o meu com rendinhas! – seguidos de: _ eu também, eu também! Minha mãe soberana, ordenava e o óleo quente obedecia: retorcia as bordas da clara, tecia rendas fartas e estaladiças, coroas de filigrana. Clara de seda branca, circundando o frágil epicentro de ouro líquido.
Eis então, a erupção provocada pela ponta do garfo, a incandescência do magma dourado soterrando as pérolas barrocas. O gosto? É de nobreza, princesas que éramos.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Memórias Gustativas
Condensar as memórias dos meus sabores. Difícil tarefa! A palavra condensar evoca lata de leite condensado, lambida à exaustão, língua e dedos obstinados sob a ameaça das farpas metálicas.
Selecionar as memórias mais marcantes, escolher a dedo...
Escolher... E lá vou eu novamente, túnel do tempo: vulcões de feijão crú na mesa de fórmica, meus dedinhos escolhendo o destino de favas, carunchos e pedras.
Obviamente o feijão desperta o arroz ! O aroma do refogado de cebola e óleo, o protesto do arroz por ser jogado na panela quente : chiiiiiiii; anunciações do fim das brincadeiras lá fora, antecipando o cheiro de sabonete que viria em seguida.
Leite-com-café tomado na mamadeira rosa, exalando cheiro de plástico novo, é minha memória mais antiga. Rito de passagem: leite dos pequenos e café dos mais crescidos.
Gosto híbrido: conforto do leite e o café impelindo-me ao mundo que se apresentava.
Sinapses de comida e sentimento fervilham meu cérebro. E de repente é urgente falar dos temperos de ambos. E se eu como o mundo, sou esse mundo e por ele sou devorada, são inúmeros os relatos antropofágicos.
Mas já que o objetivo é degustar algumas memórias e não se empanturrar com uma enciclopédia, marchando: algumas delas.
Selecionar as memórias mais marcantes, escolher a dedo...
Escolher... E lá vou eu novamente, túnel do tempo: vulcões de feijão crú na mesa de fórmica, meus dedinhos escolhendo o destino de favas, carunchos e pedras.
Obviamente o feijão desperta o arroz ! O aroma do refogado de cebola e óleo, o protesto do arroz por ser jogado na panela quente : chiiiiiiii; anunciações do fim das brincadeiras lá fora, antecipando o cheiro de sabonete que viria em seguida.
Leite-com-café tomado na mamadeira rosa, exalando cheiro de plástico novo, é minha memória mais antiga. Rito de passagem: leite dos pequenos e café dos mais crescidos.
Gosto híbrido: conforto do leite e o café impelindo-me ao mundo que se apresentava.
Sinapses de comida e sentimento fervilham meu cérebro. E de repente é urgente falar dos temperos de ambos. E se eu como o mundo, sou esse mundo e por ele sou devorada, são inúmeros os relatos antropofágicos.
Mas já que o objetivo é degustar algumas memórias e não se empanturrar com uma enciclopédia, marchando: algumas delas.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Perdão chuchu!
Ao chuchu sempre coube o meu desprezo. Sequer o consolo da repugnância, que ao menos define senão as coisas, os sentimentos. Quase uma pessoinha boa, mas chata! Confesso: às vezes prefiro os malvados aos chatos, pela pura razão de não saber lidar com os segundos sem sentir-me invadida ou corróida por remorsos. Os maus mobilizam-me: revidar, odiar e quiçá vingar. Já os chatos... Não consigo odiá-los em paz, ignorar as insistências telefônicas, ou simplesmente esconder-me atrás de postes e árvores, sem sentir cheiro de culpa e enxofre; ou ainda enxergar nas nuvens, seus rostos magoados. Era assim com o chuchu. Tão diferente do fígado, que odeio e ponto! Já comi desavisada e achei que a carne estava estragada. Certeza libertadora. Mas voltando ao chuchu, nunca me acostumei com o líquido rompido, destoando de sua textura. Nem aos apelos: _ é gostoso, não tem o gosto do chuchu. Ora, para que comer algo sem sentir? Deprimente como falta de tesão!
Sem contar as investidas dos consultores organizacionais que comparam as pessoas a chuchus e pimentões: "o que você quer ser? alguém que deixa sua marca ou absorve tudo ao seu redor? Pobre chuchu e nesse caso também, pobre pimentão e pessoas.
Segui tranqüila minha vida sem sentimentos viscerais ao chuchu.
Até que um dia, minha sogra (sim, minha sogra) apresentou-me ralado com coentro: sem sorrisos, mas convicta: "_ Parece camarão"! Não achei. Como pode parecer camarão?
Mas, confesso: nesse dia fui tocada! Fiz raladinho, punhadinhos de outras ervas (mas nunca movida por pretensões alquímicas de transmutar chuchu em camarões...).
Até que um dia, vindo sei lá de onde , uma imperiosa vontade de comer suflê de chuchu me deixou insana (juro: nada de larica!) .Aventurei-me... Vozes do passado sussurravam algo como lavar em água corrente para não manchar as mãos. Não sabia o que fazer com aquela parte branca (ainda não sei).
Sei exatamente o momento em que a paixão eclodiu: quando misturei o estranho creme verde (não fica uniforme quando processado) ao bechamel e seda nova surgiu! Colherada boca a dentro, cru ainda. O suflê a despeito de tudo que já ouvi, cresceu lindo ao som de rock distorcido do meu radinho e ignorou minha vigília isana na porta do forno.
Minhas papilas gustativas acordaram para essa nova experiência. Reconheci a sutil dirença entre suavidade e sem-gracice. Aquele verde-criancinha não foi deixado de lado nas brincadeiras do queijo e ovos: reinou!
Veredito: sim, eu gooooosto muito! Todo do problema era a textura.
Ação: pela graça concedida espalhar "santinhos digitais". E para começar bem o ano:
Perdão chuchu! Obrigada Dona Jacy!
Em breve, as peripécias de Chuchu e Eu. (E não é que lembrei-me que o meu primeiro beijo foi com um tal de Chuchu?!)
Sem contar as investidas dos consultores organizacionais que comparam as pessoas a chuchus e pimentões: "o que você quer ser? alguém que deixa sua marca ou absorve tudo ao seu redor? Pobre chuchu e nesse caso também, pobre pimentão e pessoas.
Segui tranqüila minha vida sem sentimentos viscerais ao chuchu.
Até que um dia, minha sogra (sim, minha sogra) apresentou-me ralado com coentro: sem sorrisos, mas convicta: "_ Parece camarão"! Não achei. Como pode parecer camarão?
Mas, confesso: nesse dia fui tocada! Fiz raladinho, punhadinhos de outras ervas (mas nunca movida por pretensões alquímicas de transmutar chuchu em camarões...).
Até que um dia, vindo sei lá de onde , uma imperiosa vontade de comer suflê de chuchu me deixou insana (juro: nada de larica!) .Aventurei-me... Vozes do passado sussurravam algo como lavar em água corrente para não manchar as mãos. Não sabia o que fazer com aquela parte branca (ainda não sei).
Sei exatamente o momento em que a paixão eclodiu: quando misturei o estranho creme verde (não fica uniforme quando processado) ao bechamel e seda nova surgiu! Colherada boca a dentro, cru ainda. O suflê a despeito de tudo que já ouvi, cresceu lindo ao som de rock distorcido do meu radinho e ignorou minha vigília isana na porta do forno.
Minhas papilas gustativas acordaram para essa nova experiência. Reconheci a sutil dirença entre suavidade e sem-gracice. Aquele verde-criancinha não foi deixado de lado nas brincadeiras do queijo e ovos: reinou!
Veredito: sim, eu gooooosto muito! Todo do problema era a textura.
Ação: pela graça concedida espalhar "santinhos digitais". E para começar bem o ano:
Perdão chuchu! Obrigada Dona Jacy!
Em breve, as peripécias de Chuchu e Eu. (E não é que lembrei-me que o meu primeiro beijo foi com um tal de Chuchu?!)
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