
Cresci alheia à saga dos Jatobás, sem me interessar pelos seus dotes culinários. Mas, mesmo assim, recebi esses dias, um email de um Jatobá deprimido. Contava-me que a despeito de suas possibilidades gastronômicas, continuava a ser ridicularizado por árvores das espécies que dão frutos cheirosos, coloridos e suculentos. Beldades acostumadas com os flashs das grandes festas. Contou-me que no farfalhar das folhas, sussurram: Fedegoooooso! Fruto feio! Vangloriam-se de suas origens do além-mar e de sua relação íntima com chefes famosos. O bom Jatobá de madeira forte e farinha polivalente confessou-me: _ “Ai, que me falta glamour!”. Foi de partir o coração!
Numa conspiração do destino, no evento Paladar desse ano, as alquimistas Ana Soares, Mara Salles e Neide Rigo em sua aula de invólucros naturais, apresentaram entre as inúmeras bonitezas das folhas e palhas, uma caixinha de jóias comestíveis. A vagem do Jatobá cortada com esmero abrigava três suspirinhos feitos com sua farinha. Carpintaria da perfeição em marrom profundo com amarrilho natural. É claro que arrancou palmas da platéia e delírio do Senhor Jatobá, uma cinderela vingada!
As caixinhas se tornaram objeto de desejo, resisti ao ímpeto de furar a mão de alguém com o garfinho de madeira, para garantir a minha. Faltou-me coragem, de forma que fiquei sem.
Recebi mais emails, alguns dizendo que depois disso o Senhor Jatobá está insuportável e outros dizendo que existem outros frutos clamando por seu dia de princesa.
Alguém se habilita?
12 comentários:
Lili, que delícia este jatobá! Sua preguiçosa, por que não escreve mais, tão bem sabe fazer. beijos, N
Lili, você, assim como a Neide Rigo, tem o dom da escrita. Que texto lindo! Parabéns!
Sou novíssima aqui, mas vou engrossar o couro acima: escreve...escreve...escreve maaaaaiiissss!
Amei seu texto...
Esse dom é para poucos viu, use-o!
Paz e muita Luz sempre...
Aécio,
Muito obrigada! eu sou fã e puxa-saco da Neide, sinto-me honrada! abraços
Querida Lili, nunca mais te vi!
Que beleza de texto! Que tal tomar pra si a defesa desses ingredientes desprezados? como disse a Roberta Sudbrack no Paladar "... a essência de um ingrediente pode estar escondida sob uma forma aparentemente desprezível"
Se gostar da ideia, um bom começo é a cagaita; um projeto pra mudar o nome da coitada da fruta, por sinal que muito boa.
Vou fazer uma caixinha de suspiros pra você; como assim, justo você ficar sem o jatobá? Obrigadíssima pela força no Paladar.
Beijo Mara Salles
Já tentei encontrar esses jatobás, justamente para servir como embalagem de bombons. Mas cadê que encontro?
O texto ficou um primor!
Muito prazer!
Gina
Cheguei aqui através da Neide. Um texto sobre o Jatobá e referência à vingança do mesmo.
Temos um pezinho de Jatobá, doado por um amigo e plantado com muito carinho.
É meu primeiro contato com a planta, o fruto ainda não conheço.
Conexão horrível, salvei nos favoritos e esqueci (perdão).
Hoje, em busca de algo para distrair, fui lá nos favoritados (isso existe?) e comecei do começo, o texto do chuchu.
Surpresa maravilhosa!
Textos delicosos, o chuchu mais saboroso que já provei, e dai pra frente li tudo, tudinho. De um em um, saboreando com a alma.
Continue nos deliciando.
Mara,
Seguirei sua dicas!Vou convidar para o divã os frutinhos não enquadrados socialmente. Um grande beijo!
Lilian,
Muito obrigada! Vou ver se largo a preguiça, as desculpaas etudo o mais, que tão bem sei fazer para justificar-me! bj para o Gabriel e para vc!
oi lili vou pegar meu jatoba ..comer um pouquinho com meus dentes maduros e me preparar p a tua vinganca do jatoba ! neka
Parabéns Eliane! Excelente abordagem sobre um dos frutos mais enigmáticos do bioma cerrado, que juntamente com o araticum, o pequi, a jabuticaba, a cagaita, o buriti, dentre tantos outros, bem demonstram o potencial gastronômico desses frutos, relegados pela alta gastronomia mas que são elementos de identidade do Brasil Central. Como cozinheiro, já promovi algumas degustações dirigidas empregando somente os frutos desse bioma, daí resultando interessantes experiências gustativas: mousse de araticum com calda de jabuticaba; sorvete de pequi com calda quente de jabuticaba e crocante de baru (ou Sunday do cerrado!); beijinho do cerrado (doce de buriti envolto em brigadeiro de pequi "rolado" em farofa de baru); torta de jatobá com banana da terra caramelada no meu de engenho, servida com um fio de azeite de babaçu; nhoque de pequi com ragu de galinha caipira, tricolore do cerrado (massa artesanal utilizando as farinhas de jatobá, buriti e babaçu); focaccia de pequi com alecrim e sal grosso; arroz vermelho com lascas de buriti. Isso para exemplificar algumas possibilidades. O bioma cerrado é o segundo maior em biodiversidade e consegue transitar por outros biomas, extraindo deles outras misturas, cores, texturas e aromas, sempre nos reservando outras surpresas, como a fava de uma orquídea típica do bioma e que empresta o mesmo aroma e sabor da baunilha, ou seja, ela é a baunilha do cerrado! VIVA O CERRADO! A savana brasileira. Um abraço.
Moises,
Sabe como é acordar com vontade de fruta que nunca comeu? assim abri os olhos hoje, depois de ler suas criações: fantásticas! Obrigada pelo comentário,
Abraços
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